quarta-feira, julho 12, 2006

O rapaz que pensou na vida

Só lhe apetecia ser o capitão Jack Sparrow e imaginava-se a navegar e a naufragar entre as pessoas da cidade, uma cidade repleta de vacas pintadas de cores esquisitas. Desejou ser um bêbado fiel ao rum e aos cânticos de piratas desastrados. Enquanto desejava isto e aquilo e se inventava no porão de um navio fantasma, as pessoas tiravam fotografias às vaquinhas e faziam-lhes festas. E ele de vez em quando vinha à tona como quem vem à realidade.
O destino, por vezes, prega partidas às pessoas. E, desta vez, a partida do destino foi não ter surpreendido ninguém. Daí a sua deriva. Acordou com um telefonema e nesse telefonema vinha uma notícia: o avô morrera. O avô, o patriarca. O primeiro, a origem, a raiz de uma determinada variante da existência humana. E, sobretudo, da sua existência. Por estranhos caminhos, o destino fizera cumprir a ordem natural dos acontecimentos na sua vertente cronológica: o avô fora o primeiro a morrer em todo o clã. E morrera já com os seus oitenta e muitos anos. Quiçá, noventa e tais. Ninguém sabe ao certo a idade das pessoas velhas. Ele, pelo menos, não sabia. E pensava nisso e só lhe apetecia não pensar em nada, ir só por ali, como se o vento lhe empurrasse o corpo ou o navio ou a razão. Não gostava de pensar nestas coisas da vida e tudo o que queria era parar e beber uns valentes copos. Talvez chorar. O avô morrera de quê? Provavelmente, de estar gasto. De estar farto. Uma pessoa vive mas isso cansa um bocado.
Enquanto não pensava em nada disto com teimosia, percebeu certas coisas. Percebeu que até a vida dos velhos pode ser curta. Isso afligiu-o. Não por esta morte específica desta pessoa determinada. Mas pelo que faltava. Faltava ali qualquer coisa. Por que é que lhe apetecia chorar se o velhote morreu de idade, quem sabe de obstinação, de vontade própria? Provavelmente, porque não se cumpriu em relação ao avô, porque não se deu à vivência desse mesmo avô como agora percebia que poderia ter-se dado. Os avôs morrem e as coisas que ficaram por fazer não desaparecem, mantêm-se como assombrações, fantasmas chatos que transtornam o pensamento todo a uma pessoa. E até as emoções se fragilizam em casos destes. Ele costumava ser uma pessoa calma, descontraída e com a certeza de que estava vivo - embora nunca aprofundasse esse assunto em demasia. Mas agora essa maneira de estar sofrera um torção, um abalo. No mínimo, um puxão de orelhas daqueles que fazem as pessoas ficar próximas do chão.
Talvez o que o incomodasse enquanto as pessoas passavam por ele, enquanto a cidade não queria saber dele tal como nunca quisera, enquanto as vacas coloridas estavam para ali a pastar coisa nenhuma sobre o cimento, a calçada, o alcatrão e o lixo, fosse apenas esse puxão de orelhas. E chorou um bocado. Sentou-se e chorou. Achou-se mais ou menos ridículo, talvez um pouco fraco, por estar a chorar, assim, no meio da rua, por nada, com toda a ignorância de toda a gente a ser-lhe paralela - a ele e ao que sentia nesse preciso momento. Porque sentia perda. Um certo vazio. Não aquela saudade que se diz que as pessoas sentem quando alguém morre. Para isso ainda não tivera tempo. Sentia se calhar a falta do patriarca. Da referência. Como se sentisse a ilusão da eternidade a fugir-lhe, assim, de repente, a mostrar-lhe que não existira nunca. Caramba, se o patriarca, aquele que era velho e não morria, havia morrido, então também ele se sujeitava à finitude da mortalidade. O que é regra para uns, é regra para todos - sempre assim fora na família. E, pela primeira vez em toda a sua existência, achou que, de um certo modo, era possível que a sua existência fosse efémera.
Limpava as lágrimas às mangas do casaco e perguntava-se "ó João, quanto humano é que tu és?" e percebia que ainda não sabia como responder a isto. O avô fora humano, isso percebia-se: tivera prole, genes a derivar pelo cosmos, um corpo que fizera coisas e que agora se aprestava para alimentar a terra. Isso é coisa de humano. Mas e ele? João, que nunca fizera muito e sempre pensara pouco, o João das redomas longe do mundo, a fingir que navegava como um pirata amaldiçoado, ainda se surpreendia com esta sua perspectiva: "humano, eu?!".
Mas a pior verdade que se entrelaçava na cabeça de João e quase a asfixiava era esta: ele não sabia o que fazer. A família estaria, por certo, já toda reunida em torno de um caixão com o pedaço morto do homem que o avô fora. E ele não. À ideia veio-lhe uma conversa também velha que tivera com um amigo. A certa altura, o outro dissera-lhe que, nas alturas difíceis, o que mais importa é "estar lá". Na altura, a coisa não lhe fez grande sentido. Mas neste dia isso do "estar lá" ganhava uma nova forma e uma outra profundidade. Estar lá com os seus, a ser mais humano e finito em redor do patriarca que os originara a todos. Comoveu-se com a imagem e decidiu juntar-se ao clã. Sentiu algum conforto na ideia de não estar sozinho. E sentiu outro conforto por não deixar os outros sozinhos.

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mais um resto... Para o todo que há-de vir.

3:39 da tarde  
Blogger Joana said...

Bom texto, de uma humanidade imensa. Há que ser homem (não com H grande como dito habitualmente mas simplesmente com h, tarefa bem mais difícil) para se escrever da dificuldade e do belo que há nessa condição, sem artifícios. A descoberta ainda que dorida do João sugere, a seu tempo, uma saída feliz para ele.

9:01 da tarde  
Blogger vareta said...

Tu, pá, tu...

10:09 da manhã  
Blogger B said...

vou telefonar ao meu avô

3:29 da tarde  
Blogger zamot said...

Muito bonito.

2:55 da tarde  

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