Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Publicação excepcional

Não me refiro ao texto em si, embora tenha por ele grande estima. Refiro-me ao facto de, excepcionalmente, republicar um texto. A primeira publicação aconteceu num velho blogue meu, há alguns anos atrás. Reli-o quando, por mero acaso, procurava um outro texto (entretanto, abandonei as buscas porque me fixei neste). Não resisti. Ele merece mais leituras. Não uma condenação fria ao esquecimento num cache qualquer da Internet...


Milene e Seus Três Homens (parte I)
«Se gosto que me venerem?... Sim, é simpático.»
(Milene, diva, baixista e vocalista dos Milene e Seu Três Homens)

Há duas coisas férteis em amor e desgostos de amor: a adolescência e o submundo dos artistas rock.
Quando falo da Milene não o faço com as palavras todas que a sua existência exige. Não tenho palavras que cheguem para uma criatura tão potente e duvido que haja palavras suficientemente belas para descrever uma personificação tão poderosa da perfeição.

A primeira vez que vi Milene foi num concerto no Tanga's, um bar nos arredores da escola secundária. Na altura, a banda chamava-se "Nome Curioso". Tinham um nome curioso. Tinham bateria, guitarra, teclas, baixo e, claro, a voz e a presença e o espaço ocupado e o ar inspirado e expirado por Milene. Apaixonei-me. Devia ter catorze anos. De certeza que tinha catorze, estas coisas ficam bem marcadas. Eu sei que tinha catorze. Ou quinze. Após o concerto, resolvi que ia fazer três coisas: acompanhar todos os concertos dos "Nome Curioso" até conhecer a Milene; aprender a tocar guitarra; e a terceira é íntima. Só posso adiantar que tem a ver com a inocência e que tudo tem um fim, incluindo a inocência, e que a Milene era uma das personagens principais nesse assunto, contracenando comigo, assim num ambiente escaldante, provavelmente num banco de trás do seu Fiat Uno, que na altura era novo e até tinha auto-rádio. A Milene era três anos mais velha que eu e já podia ter carta de condução e Fiat Uno.

Acompanhei Milene e a sua banda durante sete meses, uma semana e três dias, até que a consegui conhecer. Apresentaram-me. Deu-me um beijo na cara, as minhas hormonas reagiram e ela riu-se. "O puto tem pinta". Virou-me as costas. Um objectivo cumprido. Entretanto, em sete meses e tal, já tinha aprendido os acordes básicos, algumas escalas simples e uns dedilhados janotas. Pouco tempo depois, a minha vida mudaria: à entrada do Bloco C, no qual eu tinha a maior parte das aulas, um cartaz de aspecto gastro-punck anunciava em garrafais "PRECISASSE GUITARRISTA!!!". Percebi que era da autoria da Milene... Por alguma razão, já conduzia um Fiat Uno e ainda andava no 10º.

Fui ter com ela. Olhou-me, riu-se e exclamou bem alto "Olha o puto. Tu és giro, puto... és virgem?" Riram todos, riram muito e as cervejas continuaram a rodar. Mas não me fiquei. "Por acaso, sou", respondi, severo. "Mas podemos aprofundar o assunto", completei. Os músicos dos "Nome Curioso", que dedicavam cada minuto da sua vida a adorar Milene e a segui-la para toda a parte (menos para o WC das raparigas, que era proíbido... mais ou menos), levantaram-se e aproximaram-se de mim. Um pôs-me a mão no peito, outro soprou-me fumo à cara. Já me preparava para resistir, lutando. Mas Milene irrompeu pelo meio do gang, afastou-os, pousou a sua mão no meu ombro e disse "Como é que te chamas mesmo?"

Duas semanas depois, surgia uma nova banda e eu era o seu guitarrista. "Milene e Seus Três Homens". O baixista e o guitarrista dos "Nome Curioso" saíram, protestando contra a minha entrada na formação. Milene ficou com o baixo, embora num formato a lembrar Sid Vicious ao vivo... Quando demos o primeiro concerto, três meses mais tarde, no Tanga's, já eu tinha uma opinião formada acerca dos bancos de trás do Fiat Uno.

Milene e Seus Três Homens (parte II)
«Um ícone, eu?!... UMA ícone! UMA!»
(Milene, diva, vocalista e baixista dos Milene e Seus Três Homens)

Eu estava habituado a ser visto como objecto estranho, nos tempos da secundária. Ouvia Sonic Youth, enquanto a esmagadora maioria do pessoal se dividia entre a nostalgia rimbaudista dos Doors, a modernice inestética rock-star dos Aerosmith e a senilidade quadrada e repetitiva dos Stones. Havia umas aves raras que andavam numa de ser punks e tinham correntes, cães fora de prazo, xámon e vinis dos Sex Pistols. Eu até curtia mais Clash, mas era outra onda. E só tive uma cadela, gorda e lustrosa, que não sabia andar de monociclo. Eu não era punk, eu era diferente. Também havia malta, tipo os "meninos", que curtiam os R.E.M, e isso até nem tinha nada de mal. Mas também não era muito positivo e o look Michael Stipe era um bocado duvidoso. Porém, não me vou alongar para não dizerem que sou politicamente incorrecto. Não quero relacionar o aspecto do Mickey com o Tom Hanks no Filadélfia.

Abreviando, eu era um excluído. Por vontade própria e por inevitabilidade. Era um inadaptado. Não daqueles tipo James Dean, rebelde sem causa; eu era mais um subversivo sem importância. E as pessoas estranhavam-me. Na maior parte dos casos, porque sempre que reparavam em mim, sentiam que era a primeira vez que o faziam. Nunca cultivei muito a cena do "ser popular" e acho que as pessoas tinham dificuldade em memorizar a minha pessoa de então - por um lado é bom, porque assim tenho um passado limpo.

Foi, portanto, uma novidade para toda a escola quando o povo começou a dar por mim enroladinho na escultura da Milene atrás dos balneários. Aquilo eram beijos bué de sérios que a gente dava. Havia dias em que chegava a casa até me doíam os maxilares inferior e superior, os malares e o estômago, tal era força com que ela me sugava a língua (cheguei a ter aftas, derivado destas nossas aventuras pré-sexuais...).

E a escola assistia sem reacção: eu, o puto esquisito, a degustar toda aquela fartura e sem partilhar com ninguém. A nossa relação ia ganhando contornos cada vez mais sérios. Eu até acompanhava a Milene nos tempos mortos em que faltava às aulas de Português e íamos para o Tanga's beber sangria, fumar cigarros e ler a Bravo na versão alemã. Eu não percebia uma palavra de alemão, mas ia percebendo quais as estrelas mais importantes da música da época porque via as fotografias e associava às bandas que apareciam no Clip Clube. A Milene também não percebia uma sílaba de alemão, mas parece-me que não se ralava com isso das bandas nem via o Clip Clube. Ela era mais de olhar para as fotos do Richard Dean Anderson, do Luke Perry, do Bon Jovi ou do Axl Rose, que era tudo rapaziada bem cotada na bolsa das paixões das adolescentes.

Tipo, a dada altura a minha personagem já tinha peso no eco-sistema escolar específico. Os meus seis anéis passaram de aberração a estilo; o cabelo desgrenhado, de foleirice a revivalismo paleolítico; os all-star rasgados, de sinal exterior de pobreza a imagem de marca. Penso que, de alguma forma, acabei por contribuir decisivamente para a implantação da imagem e do culto "grunge" na Europa Ocidental - já disse isto numa entrevista ao Blitz.

Para reforçar a minha ascensão meteórica no universo sócio-estudantil, os Milene e Seus Três Homens granjeavam novos fãs em movimentos cada vez mais expressivos. Aos poucos, o nome Nome Curioso varria-se da memória musical colectiva, sendo substituído pela nossa designação poderosa. Cada concerto nosso era um marco na história das vidas daqueles teenagers sem ídolos. E esses ídolos iam nascendo aos poucos, íamos sendo nós: os rapazes suspirando por Milene; as raparigas fazendo de mim um ícone de uma geração. Havia quem gostasse das nossas músicas.

Milene e Seus Três Homens (parte III)
«O que é que eu acho do amor?... Bem, das vezes que fiz curti e quero repetir... Mas nunca digo desta água não beberei.»
(Milene, diva, vocalista e baixista dos Milene e Seus Três Homens)

Quando comecei a contar a história da minha passagem pelos Milene e Seus Três Homens e da minha relação com Milene, a diva, durante esses tempos remotos e saudosos, comecei por advertir os leitores para o seguinte: "há duas coisas férteis em amor e desgostos de amor: a adolescência e o submundo dos artistas rock". Ora, esta história retrata, de uma só vez, a intromissão de um adolescente no sub-mundo do rock e a experimentação de drogas leves, bem como os primeiros contactos com bancos de trás de FIAT's Uno. E não estou a falar de viagens.

Portanto, podem concluir os mais sensíveis que a melhor atitude a tomar é interromper de imediato a leitura deste texto. Vai tudo acabar em drama, tragédia, revoluções interiores, pequenas vinganças, alguma violência física, grandes desgostos, o fantasma da separação eterna, um último charro depois de umas últimas carícias íntimas, sangue nos lençóis, duas luxações - uma em cada cotovelo -, anti-depressivos, e, por fim, a separação da banda, cada um para seu lado. E o baterista suicida-se, mas não quero tirar o suspense.

Regressemos à época em que o sucesso dos Milene e Seus Três Homens não parava de crescer. Entrámos em tournée pelos concelhos de Oeiras, Amadora e Cascais. Tínhamos um público diversificado. Aparecemos num cantinho do Blitz, vinha eu e a Milene na foto, a dar um beijo em palco: "O beijo do futurismo electro-rock-romântico", titulava o repórter. Éramos elogiados. Principalmente a Milene. E é aqui que tudo muda.

Se alguém se interrogou, alguma vez, por eu nunca ter falado do Gonçalo Frota (não, não é aquele gajo grande da Quinta das Celebridades...), pois é esta a explicação: Milene. E, garanto!, os editoriais e crónicas desse amiguinho, no Blitz, haveriam de me ter rendido pelo menos uns dez ou doze textos. Mas não. Eu, aos meu inimigos, não escrevo mal deles nas costas.

Antes de nos separarmos, eu e a Milene, decidimos aproveitar uma última noite - o Frota nunca soube, mas pode saber agora; ele visita o blog, às vezes. Enquanto fumávamos uma últmia ganza, depois de... do... hrum... Milene confessou: "não é que eu não goste de ti, miúdo. Mas estas cenas são raras... as oportunidades, 'tás a ver?" Eu continuava, mas vocês já perceberam a ideia. O preço da fama, do rock e da adolescência: buracos no coração.

A história do baterista é mesmo verdade, suicidou-se. Rui Freire, se quiserem confirmem no arquivo de identificação de Lisboa. Peçam o registo da autópsia, está lá tudo: "hemorragias internas várias resultantes da ingestão de objectos pontiagudos e/ou cortantes". Eram pontas de cordas de bronze, que ele cortou em pedacinhos com um alicate e comeu, em seguida. Aparentemente ele também andava com a Milene e não suportou que ela se tivesse apaixonado pelo Frota.

Mas Milene acabou também por pagar caro o seu sucesso fácil. Não sabem?... Eu conto. Eu hoje falo de tudo, que há coisas que não se podem guardar para sempre. A Milene estava grávida do baterista, mas não sabia. Mas depois soube, porque a barriga lhe inchava e pronto, estas coisas têm sempre explicação. O Gonçalo Frota não gostou de saber que não era o pai da criança e saiu de casa - eles já estavam a viver juntos, nos Olivais Sul, num T1 miserável, quarto andar sem elevador, ou coisa assim (ah!, a "fama", dizia ela...). Sem dinheiro, sem amigos, sem instrumentos, sem banda e sem Frota, Milene temeu pelo seu futuro. Decidiu desmanchar o que o bateria fecundara com tanta paixão - e que poderia ter sido criado por matéria minha! A operação correu mal e Milene foi encontrada duas semanas mais tarde, sobre a cama ensanguentada, com um espeto na mão direita e o rosto, já tolhido e em putrefacção, mas denotando arrependimento e conservando a expressão congelada de um último olhar aflito. Não nasceu ninguém e duas pessoas morreram - a fama, eis o seu preço! Entretanto, Gonçalo Frota subiu na vida e hoje assina com o nome todo, em vez das iniciais por baixo dos trechos mal copiados a partir da agência Lusa.

No funeral de Milene, a diva, conversei com os membros que restavam dos Nome Curioso. Fizemos umas jam's, mais tarde, e bebemos cervejas. Tempos depois, pouco restava de toda esta tragédia. A vida avança, as pessoas evoluem, crescem, às vezes esquecem. Mas, se há imagens que ficam, a de Milene apagada é uma delas. O rosto, semi-reconstruído e sem vida, simbolizando o vazio que veio ao mundo quando o espeto que segurava na própria mão a esventrou com violência, raiva e desespero. Ser um ídolo não é fácil e nem todos somos fortes.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

A Coitadinha

(A noite passada, eu tive este sonho.)

-Coitadinha sou eu, há mais de dez anos, fechada dentro desta cabeça e destas paredes.
-Would you please take your unfortunate and miserable reality the fuck out’a here?
-Coitadinha sou eu, há mais de dez anos, fechada dentro desta cabeça e destas paredes.

(E, repetindo a frase como que rezando, assim se foi A Coitadinha, trôpega e alheada, por entre os pinheiros, devagarinho. E eu senti a mais dolorosa compaixão por aquela mulher de cabelo amassado, a reclamar um banho que há muito que tarda, de olhar azul e ausente, enlouquecida, vestindo uma bata de mulher do campo por cima das outras roupas e calçando uns botins de borracha encarnados. E o homem, um homem enorme e desconhecido, que estava comigo, de olhos lacrimosos e voz embargada, “you shall never, ever, pity her... it’s even worse”.)

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Uma Vida a Dois

Eram daquelas pessoas que faziam muitos planos. Desde sempre e desde o mais pequeno detalhe. As coisas planeavam-se com minúcia, com rigor e com intenção de cumprir. Faziam planos e guardavam segredos. Eram pessoas herméticas e rigorosas, portanto. Este texto não é para ser lido nem interpretado. Estou apenas a juntar notas sobre combinações potencialmente trágicas para um pequeno conto sobre pessoas que gostam uma da outra e que vão ter um final inevitavelmente infeliz. Há personagens cujo fado é incontornável. Nasceram para estar erradas. Estas duas são um pouco diferentes. Erradas, erradas não estão. O que é que, na conjugação, matemática e metafisicamente, a equação humana dá erro. Do tipo, e estamos no campo das suposições: ele planeava a meias com ela percorrer as estradas desertas do Sul de Espanha, como nos filmes de estrada americanos. Queriam um carro descapotável, um chapéu de caubói, um auto-rádio com leitor de CD’s, para poderem ter uma banda sonora à Tarantino ou à Sergio Leone. Levavam notas à solta num saco desportivo para pagarem a estadia em motéis de beira da estrada. Uma máquina fotográfica digital e uma lomo fish-eye, para registarem a severidade do deserto agreste. Eles chamavam-lhe “solenidade” - havia ali qualquer coisa de impor respeito. E levavam mapas, vários mapas. Um caderninho com nomes de estalagens. Um violão, uma faca de mato e um pequeno revólver, para eventuais necessidades de resolver imprevistos. E uma pá no porta-bagagens. A pá é fundamental. Tudo isto, planeado e anotado entre os dois.
Porém, em segredo, ele planeava levá-la até, por exemplo, El Choro (que é para enfatizar o dramatismo) e, uma vez chegado, negociar com os ciganos locais. Negociar o quê? Negociá-la a ela. Ela, para o efeito, deve ter atributos físicos de notar à primeira vista. Não pode ser feia, não pode ser gorda. Tem que ter pinta. Em segredo, ele trocara já telefonemas (a partir de um telefone público) e fizera envio de diversas fotos actualizadas dela. O acordo estava firmado. O preço estabelecido levava muitos zeros e eu não posso agora gastar caractéres. No acordo entrelia-se “fazem com ela o que quiserem; podem cortá-la aos bocadinhos e fazer paelha, se vos aprouver”.
Mas, ela, por seu lado, planeava, também nos seus segredos, um projecto de vida diferente daquele que ambos haviam sonhado ao longo de meses e meses, sempre tomando notas e verificando mapas e organizando extractos de conta e comprando chapéus e CD’s de canções à caubói. Na verdade, ela não era mulher de um homem só. Viajada nos tempos de juventude, deixara em muito sítio o seu perfume e cicatrizes. Mas cicatrizes também ela as trazia. E uma delas fora feita em Almería. Por um gitano de nome Paco. Que dançava flamenco. E cantava com voz grossa e muito alta e batia palmas. Ela trocara com Paco alguns telefonemas. Ela também ia à cabine telefónica – mas ia a outra, para não se cruzar com ele. E é este o encanto do casal. De tão rigorosos e espertos que eram, sabiam há muito um do outro que se guardavam segredos. E sabiam, um do outro, que o outro também sabia disso. Nunca, porém, haviam tocado no assunto. Mantinham-no em segredo. Portanto, e por cautela – vá lá, também por respeito e, quiçá, para manter ilusões -, faziam questão de ir à rua “só fazer uma coisa”, à mesma hora, mas em pontos opostos do quarteirão. É de notar que ambos suspeitavam, ambos temiam, ambos tinham maus pressentimentos. Mas, diz o povo, “quem não tem telhados de vidro que atire a primeira pedra” (isto na Bíblia não era nada assim, não havia telhados de vidro). Nenhum deles se atrevia a acusar ou a tirar dos segredos a suspeita. Ela enviara a Paco o seguinte, no último envelope: sete fotografias dele (tipo passe, meio corpo, corpo inteiro, perfil, etc.), todas actualizadas; um mapa itinerário; um “plano B” que passava por Sevilha; 250 euros para comprar a pistola (o revólver ia sempre no cinto dele); e uma pequena nota onde se lia “a pá levamos nós... te quiero, gitano”.
Chegou o dia, a viagem começou. Pararam um pouco dpois de Badajoz, numa bomba de gsaolina de beira de estrada, daquelas estações de serviço desertas onde param camionistas para dormir a sesta. Ela foi à casa-de-banho (fugiu pela janela e correu correu correu até que saltou para dentro de uma camioneta carregada de fruta e aí se instalou, entre maçãs e pêssegos; a camioneta ia para Mérida). Ele ia “só fumar um cigarro, enquanto esperava” (assim que ela saiu, largou o carro e apanhou boleia na direcção contrária; a boleia foi oferecida por um casal de emigrantes portugueses na Suíça – aliás, ele era português; ela era suíça – que, em Madrid, se confundiram com as direcções e, como não encontraram a tabuleta que dizia Vilar Formoso, vieram andando andando andando... como estavam cá em baixo, iam aproveitar para conhecer Lisboa e ver a Expo; ele saiu em Elvas, agradecido e aliviado).

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Diálogo cardíaco

-O meu coração é um anormal sem cérebro.
-Hum... onde é que queres chegar? Não estou a receber a fotografia...
-Ãhn?!
-Not getting the... esquece. Continua. O teu coração...
-... é desmiolado. É um inconsequente. Enquanto me encanto através do cérebro, a coisa vai bem. Medem-se as qualidades, apreciam-se os traços. Enfim, uma pessoa até sente que amar é humano. Agora, quando desce para o coração, está o caldo entornado.
-Estás apaixonado.
-Eu, não. Ele é que está. É palpitações, é desejos, é apertos, é suspiros...
-Mas isso é bom. O teu coração é o teu lado emocional. É a pureza.
-O meu coração é o aviso! Quando dispara, significa: perigo! Cuidado! É um palerma.
-Que palerma? Olha, para um músculo carnudo, é até bem esperto. Controla ventrículos, tráfegos de veias e artérias, pulsa com cadência, aumenta ou diminui o ritmo consoante a dinâmica da situação. O teu coração é um maestro.
-E também tenho arritmias.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

De faca e garfo

Segurar na alma é como segurar num garfo. Há regras para manuseá-lo, mas eu, que nunca tive etiqueta, nunca sei quais são os modos correctos. Também nunca sei a que me vai saber aquilo que vem lá na ponta. O que me salva é a faca. Que corta. Cortar é bom. Desfazer as coisas, dividi-las em pedaços, torná-las pequenas, mastigáveis, assimiláveis, digeríveis.
Às vezes o garfo parece escorregar das mãos. Não querer lá estar. Não querer ser arma de caça para o que pretendo trespassar de um só golpe, não querer ser cúmplice da faca dilacerante, não querer fazer daquele gajo possante que agarra no outro pobre que vai levar socos no estômago sem poder ripostar. Até sangrar. Por dentro e pela boca, também.
Às vezes isso da alma é um objecto que escorrega e me sai das mãos. E depois fico a pensar “ai, se aquilo me cai e se estraga tudo” e o pior é se aquilo cai e, sem que se estrague, já fica fora de mim, ali longe. E nem com um garfo a apanho. E depois? A alma, quando cai, já não se lhe pega. É como a vida. Passa uma vez e puff. O resto são memórias e expectativas por concretizar.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

O papel da chumbada na afirmação da superioridade humana

Esta noite tive um sonho dengoso em que tu aparecias, como que surgida de um pop-up. E passeavas comigo fazendo uso de todos os ingredientes cliché de um filme romântico de domingo à tarde. Eu gosto dos filmes românticos de domingo à tarde, desde que sejam comédias cor-de-rosa. Gosto da história de amor que acaba bem e que tem graça. Prefiro as outras, as negras, que acabam mal e que têm malícia (dispenso bem as tragédias e as lágrimas pedinchadas), mas não ao domingo à tarde.
No sonho, desfilávamos com suavidade pela passerélle central – por que não dizê-lo: única – de Porto Côvo. E por ruas que, na verdade, não existem em Porto Côvo (algumas assemelhavam-se aos corredores ao ar livre da minha escola C + S, quando ainda era C + S: finos pilares de ferro pintados de vermelho que sustentavam os frágeis telhados de telhas de cimento que tinham a missão, sempre mas sempre frustrada, de nos abrigar da chuva). Faziamo-lo com ternura e à-vontade, como se a nossa vida tivesse sido sempre assim e aquele momento ali não fosse apenas uma meia-dúzia de fotogramas de um fim-de-semana ou de umas férias curtas.
Com a tarde mais amadurecida, sei que te convidei para tomar uns últimos raios de sol, agora que o Verão se esvai. Disseste que sim. No sonho estávamos sempre de acordo. Descemos à praia grande e estava vento e o céu encoberto. Foi então que sugeriste com a tua doçura “que tal se formos àquela pequenina?”. No sonho não me lembrei, o meu onirismo não é enciclopédico: esse areal minúsculo e cercado por escarpas cinzentas chama-se Praia dos Buizinhos. Concordei sem hesitar. Mas então aconteceu algo surpreendente: eu fui por um caminho de escarpas, junto ao mar. Tu deixaste-me ir mas não arriscaste o mesmo trilho. Subiste, foste pela calçada junto à estrada. E íamos falando, embora mais distantes. Quase a chegar à praia pequenina, deparei-me com quatro pescadores, sincronizados e alinhados, todos muito parecidos e vestidos daquilo a que chamamos, por toda a parte, um pescador. Preparavam-se para fazer os seus lançamentos, esticavam as canas atrás das costas, as chumbadas pendiam pesadas e balouçantes e os anzóis, lá mais à ponta, flutuavam com a aragem, ostentando inseguros minhocas que ainda se contorciam – e eu nem sei se as minhocas têm dores, mas não deve ser agradável ter um ferro curvo a atravessar-nos do esófago ao ânus. Pensei nas dores hipotéticas das minhocas e dei comigo a imaginar aquela ponta arpoada a espetar-se em mim. Ainda que não me atravessasse, haveria de fazer-me dores. Os pescadores ensaiaram o lançamento e o da ponta, aquele mais próximo de mim, fez o que eu temia: o fio passou demasiado perto e o anzol colheu-me dois dedos, os dois indicadores, e não sei agora explicar isto por palavras, precisava de papel e lápis para fazer um desenho e mostrar-te a figura absurda de uma pessoa que fica de mãos presas por ter sido colhida por um anzol que nem à água chegara. E logo nos dois indicadores, os dedos que indicam o caminho e mandam calar e pedem a conta. Pensei que fosse doloroso retirar o anzol da carne. Na vida real, aposto que é – e sei que o é, eu já cravei um debaixo da unha do polegar direito. Depois, tive de golpear a minha própria carne para que o anzol se desprendesse. É que, quando a ponta do anzol se enterra por completo, o pequeno arpão fica preso e só tem duas maneiras de ser retirado: ou puxando com força, o que o fará rasgar o tecido que atravessa; ou cortando o tecido para que o anzol se solte. No sonho, retirei o anzol recorrendo apenas à minha habilidade e a alguma paciência e tu não me ajudaste. Ou ajudaste? Neste momento do sonho concentrava-me apenas no anzol, nos peixes e nos pescadores. Os pescadores que quase me pescavam e que atiravam para longe as chumbadas na ponta dos fios. Estavam a pescar ao fundo. As chumbadas na pesca ao fundo são mais pesadas do que, por exemplo, os pequenos chumbos da pesca à bóia. Isto são coisas que aprendi com o povo e com o meu pai. Os nomes técnicos podem bem não ser estes. O papel da chumbada neste tipo de pesca é mesmo assentar no fundo do mar. É por isso que ela não está na ponta do fio. A ponta do fio é para o anzol. Os pescadores são muito engenhosos. Assim, a chumbada assenta no fundo, deixando que o anzol, com o seu isco espetado na ponta, fique mais solto e flutuante, ainda que preso. Imagina: a linha fica esticada até à chumabada; mas depois fica flexível, da chumbada até ao anzol, o que permite que o isco se bamboleie sensualmente diante de sargos, douradas, robalinhos ou das menos higiénicas taínhas (dá para pescar uma taínha enrolando um penso rápido em torno do anzol). A pesca desportiva serve, no fundo, para o ser humano afirmar a sua superioridade relativamente aos peixes. É uma espécie de tourada, mas com menos sangue, menos público e menos coragem. O pescador está ali para enganar o peixe acenando-lhe com uma minhoca ou outra coisa que possa apetecer à bicharada aquática. O peixe abocanha o isco e o pescador ri-se, satisfeito, pensando “enganei mais um!”. Estamos a falar de bichos que têm uma memória de escassos segundos e um Q.I. provavelmente impossível de medir, de tão diminuto que é. Mas uma pessoa não consegue deixar de sentir um certo orgulho por ser superior. De orgulhar-se da sua condição, vá. A gente deita o anzol com um isco; o peixe vai e morde e fica agarrado debaixo da língua ou por dentro da bochecha ou no céu da boca, e aquilo deve doer-lhe, mas um peixe não tem quatro patas, um peixe não é coisa que se leve a passear à rua, um peixe não faz muita falta vivo, a gente até já se habituou a ver os peixes encaixotados, congelados, abertos, arranjados, pendurados ou mesmo às fatias dentro de sacos da Pescanova. Um peixe serve para ser pescado e ser comido.
Depois, quando acordei, fiquei a pensar no sonho. Nisso de ser pescado. E de quem pesca o quê. Quem lança o isco na ponta do anzol. Eu gostava de ser pescador e, pessoalmente, acho que tens um ar bem suculento.

Terça-feira, Julho 21, 2009

Isto não é Hollywood

A gente vive na cidade enganada, a gente nem sabe onde é que mora.
Todos os dias a gente pensa que hoje é que é o dia e que este é que é o sítio onde as coisas acontecem. Mas aqui não acontecem coisas, acontecem só imitações das coisas.
Isto não é Hollywood, bebé. Isto não é Hollywood.
A gente aqui a pensar que cria obras-primas e a gente só cria ranço, bafio e nojo. A gente faz mais falta e dá mais jeito nas obras públicas do que nas obras-primas.
Viemos para a cidade a julgar que era grande, afinal isto é pouco mais que pequeno. Porque é sempre igual e está sempre longe das cidades de verdade, das metrópoles a sério, com gente a sério. Gente daquela que importa.
A gente aqui a contentar-se com colinas e com o Tejo. Mas a gente sonhava era com gins tónicos de fim de tarde em Sunset Boulevard, a ver passar os artistas, “olha, vai ali o Johnny Depp... anda cá, bebe um com a gente”. A gente gostava era de dizer adeus e boa tarde à Natalie Portman. A gente queria mesmo era flirtar com a Scarlett Johanssen na padaria. O que a gente adorava ter um pontiac descapotável ou um hummer como os das séries de investigação criminal ou um chevrolet do tamanho de uma camioneta de carga, com uns cornos de barrosã – mas das americanas – lá à frente.
E ficar ali, estar na moda, esperar pacientemente pelo dia em que a vida muda, em que vale a pena ter nascido, vale a pena ter tido borbulhas na adolescência, vale a pena ter falhado, ter perdido, ter sofrido, ter chorado, ter acordado outra vez, todos os dias. Porque ali as coisas acontecem mesmo. Ali a vida pode mudar um dia.
Agora aqui é sempre a mesma pobreza, a mesma desistência. Até as vitórias são forjadas. E nem as derrotas são feitas de dor genuína.
Como é que uma pessoa pode sentir dores a sério se isto, nada disto é a sério, nada acontece, e as coisas que surgem são imitações das verdadeiras coisas?
Isto não é Hollywood, bebé....

Segunda-feira, Março 30, 2009

Consulta no doutor

-Doutor, tenho o corção amassado. Pior ainda: perfurado. Parece que o atiraram ao chão.
-Vou lhe receitar uma coisa.
-Uma coisa?
-Sim, um coisa: comprimidos.
-Ah...
-Funciona assim: pega na lamela, tira um e só um de cada vez...
-Sim...
-Pega num copo com água, mete o comprimido na boca e dá um gole na água...
-Hum?
-Pois, que é para ir tudo junto.
-Ah...
-Percebeu? Comprimido, água... engolir.
-Certo. E isso cura-me o coração?
-Não sei. Eu sou apenas médico. Limito-me a cumprir a minha função: receitar coisas.
-Sim, compreendo.
-Devia estar contente. Saiu-lhe comprimidos. Acho muito sofisticado.
-De facto.
-Xarope ou supositórios... ui, muito pior.
-Acredito. Eu nisto tenho pouca experiência. Só aviei receitas uma vez e já foi há muito tempo.
-E era o quê?
-Era vacinas. Não gostei.
-E com toda a razão. Vacinas é muito mau.
-Então e quando acabarem os comprimidos? Imagine que o coração ainda me dói...
-Hum... mas isso dói muito?
-Sim... bastante.
-Então compre duas caixas. Para durar mais tempo. E tome... olhe, várias vezes ao dia.
-Várias? Mas várias quantas?
-Sei lá, várias. Isto são comprimidos. Comprimidos não fazem mal. Tome várias vezes ao dia, um de cada vez.
-Certo.
-Melhor ainda: parta o comprimido ao meio e tome só metade de cada vez. Mas não se esqueça de tomar o dobro das vezes.
-Er... portanto, o dobro de várias vezes, em doses com metade do tamanho?
-Hum... pois. Suponho que sim. Olhe, as melhoras.

Terça-feira, Março 03, 2009

Poesia Lamechas

às vezes
apetece-me dizer-te coisas que já muita gente disse e escreveu
há milhares de ideias amorosas por aí
nas paredes dos subúrbios
e nos livros
algumas escritas há mais de mil anos
com edição em capa dura
que já quase ninguém lê
só professores
e alguns alunos de línguas e literaturas
outras escritas ontem à noite
com spray das lojas dos chineses
em abreviaturas neo-logísticas
com estrangeirismos à mistura
mas é bonito quando uma pessoa está apaixonada
porque se lê aquilo "Tânia o meu heart é td teu" e se pensa
"oh, que romântico"

o meu coração não é todo teu
nem um pouco só
mas há outras coisas que o são:
o meu tempo
o meu pensamento
o meu amor
a minha espera
a minha impaciência
o meu desejo
e uma ou outra peça de roupa esquecida aí em casa
mais a minha escova de dentes
que costumava ser do campismo
e que agora está no copo do teu lavatório

eu também penso coisas bonitas e queridas
só por causa de ti
por exemplo
gosto de ser a tua companhia
mesmo quando estás a fazer as tuas coisas e não me ligas nenhuma
e eu pego num livro e leio
ao teu lado
ou quando, como agora, pego no caderno e escrevo
enquanto trabalhas no computador
gosto de te fazer companhia
mesmo quando não dás por isso

também gosto de te sorrir quando estás triste
aquele sorriso parvo
a que normalmente não resistes
e te faz sorrir de volta
saber que não resistes é algo que me faz feliz
às vezes resistes
mas se nunca resistisses o amor seria um grande tédio
como uma operação matemática simples:
eu sorrio = tu derretes

também gosto de cozinhar para ti
e de escolher vinho e bebê-lo contigo

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

Subir a Rua da Voz do Operário

As luzes brilhantes e húmidas
Como lágrimas urdidas de olhos amendoados
Noite escura e comprida
Inclinada como os trilhos férreos da Voz do Operário
Nebuloso e cintilante
Endireito as palavras dos pensamentos
E aprumo os passos subintes
Tanta noite escura
Prolongada em amargura densa
Tanta ciência obscura
Mergulhada em passos de aguardência

A noite espera um final intenso
Ao cume da rua

Na esquina dos bombeiros
Onde se vira
Para onde se desce
E descendo para depois subir
Chego a casa
Instantâneo e vago
Como uma lâmpada acidental
Aceso só por acaso
Incandescente só por resistência
Eléctrico
Mas não tanto quanto o 28

Venho de Alfama
Mas venho mal apagado
Trago no bolso beatas
Ainda por acender
Perto da cama
Estou cada vez mais acamado
Descalços os sapatos, as meias
Dispo os trapos que visto
E desentendo tudo o que houver para entender

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

O Balanço de 2009

(Prólogo)

De 2008 não fiz balanços
Esqueci-me.
Faz de conta que foi um ano estático, quietinho
Sem altos nem baixos
Sempre a direito
Sempre com a mesma cadência
Como palavras sempre iguais
Tipo não não não não
Ou sim sim sim sim
E agora já é 2009 e é tarde demais
Para acrescentar palvras como “porém”
Ou outras mais esquisitas
Das boas e das más
Porque o ano já acabou
O que não é mau porque, afinal, veio outro a seguir
Como os autocarros.
Então
E antes que me esqueça
Vou fazer um balanço de 2009
Para trás e para a frente.

(Para Trás)

O Algarve era muito bonito
Mas choveu mais do que era preciso
Já lá havia muita água
- ia dali até Marrocos e mais abaixo ainda, à África do Sul, e por aí fora, até bater no gelo
Mas era bonito na mesma

O Algarve era igual em 2008 e em 2009
Menos nas garrafas vazias dentro dos sacos do Minipreço
Nas beatas acumuladas nos cinzeiros
Nos confetis espalhados pelo alpendre
No cansaço
E nos queijos que ainda faltava comer
- confesso: fui eu que comi o resto do chili
Era madrugada e eu tinha muita fome

Depois ela veio
Porque era ano novo
E tínhamos de dar beijos novos um ao outro
Como já déramos no ano anterior
Mas mais adaptados
Como se as bocas fossem ergonomicamente concebidas para se encaixar
E os lábios se ouvissem e vissem
Como os morcegos vêem, ouvindo o que mais ninguém ouve
(havia morcegos no Algarve, eu vi)

Ela deu-me a prenda de Natal que faltava
O Livro do Desejo
Foi o Leonard Cohen, que é cantor, que o escreveu
Gosto muito
O Cohen canta quase tão bem quanto escreve
O que é dizer muito
Tanto do que escreve quanto do que canta
Acho que o Cohen
Perdão, o senhor Cohen escreve um pouco melhor que eu
Não tem vergonha nas palavras
Mas tem habilidade para ser sem-vergonha
E nunca é vulgar
Por mais que seja malicioso ou explícito
Porque é inteligente
E a inteligência impede-nos de ser gratuitos
- a não ser quando escrevemos para blogues públicos ou deixamos os nossos álbuns para download gratuito autorizado
Mas isso é um gratuito diferente
Não-pornográfico

Ela escreveu uma bela dedicatória na primeira página
Aquela que ainda não é página do livro
É apenas resguardo da escrita que lá vem
Antes do título
Antes da tiragem
Antes do copyright
Antes do nome do autor e das dedicatórias que ele faz
Antes daquelas coisas todas em itálico
Que só gastam é papel

Mas a página que ela escreveu não gasta nada
- gosto muito do livro
Porém, bastava-me aquela não-página
Com a dedicatória bela

Nessa tarde fomos ver Tavira
E aquele jardim lá dentro das muralhas velhas do castelo
Atravessámos o rio a pé
Não como Jesús Cristo
Fomos por cima da ponte
Por uma questão de bom senso

E íamos ver o Inferno
Que também era do outro lado do rio
Mas que ficava, dizem, lá num pêgo
- não sei o que é um pêgo
Não sei o que é o Inferno
Mas vi a tabuleta na rotunda da A22

Acabámos por não ir
Chovia demais
A ponte era estreitinha
Tivemos receio de cair ao rio

E depois ela foi-se embora.

Mais tarde fomos ver o mar, as dezenas de âncoras na areia e a carcaça de um barco
Já meio desfeita
Era na praia do Barril
Devem ter feito o barril com a madeira que falta no barco
Voltámos num comboio muito infantil
Cheio de crianças a cantar cantigas do estilo das que eu cantava quando andava no ATL e ia para a praia no Verão
Éramos muitos
Eu às vezes não sabia as cantigas
Porque não tinha andado no infantário
E os outros todos tinham e sabiam-nas, de uma ponta à outra
Sentia-me um pouco info-excluído.
Mas hoje sei cantigas que eles não sabem
Muitas delas até sou eu que as invento

No dia seguinte voltámos.
Pelo meio do caminho, fui comer arroz de polvo.
Feliz coincidência: foi na terra onde a beijei pela primeira vez.
Estava uma delícia.

Já com o Algarve na memória
Voltei á realidade normal das coisas
Cheio de desejo de o fazer
Fechei-me no estúdio
Com a guitarra e os outros dois
Fizemos barulho e tocámos
Saímos contentes
Não nos esquecemos de nada
Há que preparar o futuro próximo

Ela regressou para perto de mim
E a quadra natalícia
Tão farta em distâncias e tristezas e saudades
Transformou-se de súbito num curto interregno
Num espaço de memória curta
Num lapso
Uma curta e estreita ponte, como a do Inferno do Algarve,
Que a gente até podia ter atravessado depressa
Para o lado que interessava.
Esta atravessámos
Já estamos do lado que interessa

(Para a frente)

Quero que ela fique perto de mim
E quero fechar-me no estúdio e fazer barulho e tocar com os outros dois
Subir a muitos palcos e fazer o mesmo
Passear com ela na rua
Mesmo em ruas que não sejam habitualmente as nossas.
Só isso, mais nada.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Poesia de quinta-feira

Era quinta-feira e ela ia-se embora.

Como se isso fosse poético
Peguei-lhe na mão e disse-lhe para não ir.
Ela encolheu os ombros
Como se tivesse de ser
E nós, ali no meio do amor, nunca compreendemos isso das necessidades

Eu disse-lhe
“a mim, não faz falta nenhuma que vás
“nem tenho gosto na tua partida
“nem acho graça a angústia de ficar assim à espera”

E ela disse que não me angustiasse
Porque volta depressa
E as angústias fazem dores de barriga

E eu sorri porque achei graça.

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Poesia roquenrole

às vezes escrevo com lixo nas palavras
dizem
reclamam que sujo a poesia

não peço desculpa
a culpa não é minha
se a sujidade vem ao de cima
como se fosse roquenrole

o lixo também pode ser lírico, contraponho
e exponho o ponto de vista
rebuscando entre os detritos
como um solista de guitarra distorcida
e fidebéques espremidos
apaixonado pelo ruído

não encontro argumentos
que me defendam a perspectiva
e não me preocupo com isso
são sentimentos dissonantes
resultantes de comportamentos
e agora não tenho rima
portanto, comportamentos
e rima não rima com porra nenhuma também
voltamos aos comportamentos
de alguém
finalmente! eis que rimei
alguém que não liga muito à lei
da poesia em geral
e da escrita limpinha em particular
mas de um modo global

ena.

Quarta-feira, Março 05, 2008

A permanente

O médico disse que a lesão era permanente. Não percebeu. Não sabia o que isso queria dizer. Permanente era aquilo que a mulher fazia ao cabelo nos anos '80, disso ele lembrava-se. Por agora, tudo o que sabia era que a perna estava presa, se mexia mal e, sobretudo, que lhe doía ali por baixo do joelho. Coisa estranha acordar assim, num dia ao acaso, e ter uma coisa destas na perna, uma permanente.
Desceu a longa escadaria do hospital como se regressasse do pico do Evereste, com muito cuidado, muito custo e pouco fôlego. Deviam era pôr ali um escorrega para pessoas com permanentes nas pernas. Rai'spartam as doenças, a velhice, os hospitais e os arquitectos. E os engenheiros. Doutores? Doutores o tanas! De que lhes vale um canudo se não sabem o que fazem. Noutros tempos, uma quarta classe valia mais do que um "doutor".
Enfim, chegou à porta, doeram-lhe as costas. Hesitou. Tinha de ir apanhar o 30, para Sapadores. Mas já que estava ali, bem que podia inteirar-se da situação. Parou, apoiado na bengala improvisada que trazia. Devia estar a meditar sobre o assunto. Ir? Não ir? Voltar para trás? Tomou uma decisão e cuspiu para o chão como quem o assume o decidido: voltou para trás para "ver que dor é esta". Chegou-se ao guichet e a senhora, que era jovem e bem-parecida, solteira, ainda por cima, atendeu-o com paciência "olá, senhor António... então, outra vez?" e ele "ah... é das costas. Dói-me as costas". "DoEM-lhe. É plural, senhor António". António não fazia a menor ideia do que é que seria plural naquela situação. Seria ele? Gente nova, pfff... Complicadinhos. Pelo sim, pelo não, acenou que sim "pois...". "Espere só um bocadinho, está bem?". António esperou, então.
Enquanto esperava, doeu-lhe a garganta. Que chatice. Tossiu. Doeu-lhe mais ainda. Levantou-se, a custo, com a lentidão das coisas enferrujadas, dirigiu-se ao novamente ao guichet. "Olhe" disse. "Diga, senhor António... que se passa agora?". "É que dói... doem-me a garganta". A rapariga riu. "Não se ria, é uma dor muito séria". A rapariga segurou o riso, recompôs-se "desculpe, senhor António, não foi por mal... Mas agora vai ter de aguardar mais um pouco, está bem?".
Passou algum tempo, António esperava sentado num banco da sala de espera e já nem se lembrava do que esperava. Estava num estado semi-adormecido, algures entre os pensamentos da vida, as lembranças do passado e a anestesia do sono. Os olhos fechavam-se lentamente e logo se abriam, num exercício repetitivo, cíclico. Lembrou-se do 30 para Sapadores, de ir para casa. Levantou-se, doeu-lhe o joelho. "Ah, isto é a permanente" disse baixinho, pondo-se a si mesmo ao corrente do seu próprio estado clínico. "Doutores..."

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Poema de sexta-feira

vou fumar um cigarro
à janela
a ver os automóveis
e a semana a acabar de uma maneira feia, gasta
cheia de buzinas
gente engarrafada e rádios a que ninguém presta atenção nenhuma
as sextas-feiras têm a particularidade de serem tão aborrecidas quanto os outros dias
mas encaramo-las com uma esperança pueril
há qualquer coisa em nós a latejar "bairro alto! bairro alto!"
e se não são as têmporas, há-de ser o pâncreas

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

Tarantino e o Cobarde Robert Ford

O que têm em comum À Prova de Morte e O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford? Absolutamente nada. Daí que seja tão fácil compará-los e estabelecer as diferenças aos mais variados níveis. Começando pelo contexto em que os vi: o primeiro, em casa, em DVD; o segundo, no cinema.
Enquanto no caso do (...) Cobarde Robert Ford - sim, porque o filme não é tanto sobre a lenda Jesse James quanto sobre o processo que conduziu ao seu (inevitável?) homicídio - o espectador deve preparar-se para assistir a uma longa narrativa, recheada de pausas e contemplações, até se chegar a um desenlace que já é conhecido à partida, em À Prova de Morte o mesmo espectador deve abastecer-se com pipocas, Coca-Cola e uma enorme vontade de não pensar. Um filme é a história para além da imagem, o outro é a imagem, sem história, apenas acontecimentos em catadupa. Isto faz de Cobarde Robert Ford melhor do que À Prova de Morte? Não o creio. Até porque um filme deve ser avaliado levando em conta o objectivo a que se propõe. E, nesse aspecto, Tarantino atira-se explícita e inequivocamente ao revivalismo do género grindhouse, saindo-se bastante bem. Se olharmos para À Prova de Morte no panorama "Tarantino", será, sem dúvida, uma obra menor. Mas se contextualizarmos a obra levando em conta o que o seu autor pretendia inicialmente, então estamos perante aquilo a que se chama "um g'anda filme": entretém, tem ritmo e tem, sobretudo, os (bons) tiques que distinguem Tarantino dos demais: excelente gosto estético, grande banda sonora e, imagine-se isto num grindhouse movie, aqui e ali, diálogos de grande nível. Já para não falar na coolness típica dos filmes do autor, em que cada personagem, tal como cada par de botas ou cada acender cigarro, é pejada de estilo, de carácter vincado que transborda até ao ecrã, de personalidade a deitar pelos poros, pelos cabelos, pelos gestos, pelo mascar de uma pastilha. Temos ainda a mestria com que é filmado - os ângulos, a velocidade, as pausas estritamente necessárias à ambiência (porque não se pode falar em adensamento do enredo, quando o enredo é um palito...), à introdução do espectador ao objecto que, dentro de instantes, irá contemplar. Este virtuosismo ganha tanto mais quanto menos é pretensioso. Três estrelas (*** de 0 a 5) para À Prova de Morte.
Voltemos ao Cobarde Robert Ford. Tenho a dizer, antes de tudo, que Casey Affleck vale cada minuto da fita. É genial, mas um genial tão detestável que faz com que maus da fita como Kevin Spacey, em Os Suspeitos do Costume, ou Edward Norton, em A Raiz do Medo, pareçam gente pouco séria. Começa por nos fazer sentir um profundo desprezo pela sua personalidade fraca, que é agravada pela sua latente ambição desmedida. Mas um desprezo que chega ao ponto de se transformar em pena. Nesta fase, Jesse James é, sem dúvida, o seu ídolo ou até mesmo a sua paixão platónica. Mas, aos poucos, a sua paixão platónica passa a ser o seu objectivo ("Tu queres ser como eu ou queres ser eu?", atira Jesse James a certa altura). E nesta metamorfose gradual, nem sempre bem gerida pelo realizador Andrew Dominik (a dinâmica do filme poderia ser muito melhor, bem como o desenvolvimento das personagens), Robert Ford (Affleck) vai, aos poucos, ganhando a sua própria personalidade - tão fraca quanto no início da história; mas muito mais distante do Jesse James que então imaginava. É notável a forma como o "cobarde" se transforma num ser humano - cheio de fraquezas, é certo, mas humano. O mais fácil seria matar Jesse James e fazer de Ford um ser apenas mau e fraco. Mas Affleck traz a Ford a dignidade e a humanidade que a história nunca lhe reconheceu. Do outro lado, temos Brad Pitt, em mais um excelente desempenho - embora algo sobrevalorizado em algumas apreciações. Pitt é um Jesse James em declínio, a um passo da loucura, que encontra (descobre? procura? desenterra de? inventam em?) no pobre e fraco Ford o seu maior fã e o seu natural inimigo - aqui também poderia ter divergido para um caso típico de "discípulo que quer superar o mestre", mas as rédeas são bem seguras; mais uma vez, prevalece o lado humano sobre o lado mítico. Pitt está em forma e passa ao lado do estereótipo "Pitt sex-symbol", entregando-se à pele de um homem fora de comum, mas também ele repleto de fraquezas (se calhar James e Ford não eram assim tão diferentes, no íntimo). O seu carácter é forte, o nome, que o precede em cada conversa, trá-lo sempre sob a forma de mito. Mas Jesse James (Pitt) mostra que também é homem. Talvez por isso mesmo se entregue deliberadamente à morte - duas interpretações, no mínimo: quereria tornar-se no mito definitivo ou revelar a sua humanidade e a sua fragilidade? Talvez tenha conseguido as duas coisas. A primeira, pelo menos, foi sobejamente conseguida.
De um modo geral, pode dizer-se que o filme é bom. Porém, Dominik perde-se, por vezes, em conversas inócuas e deambulações metafísicas que pouco ou nada acrescentam, ficando o trabalho de evolução das personagens praticamente entregue ao (enorme!) talento de Affleck e de Pitt. A própria duração do filme é exagerada - e para quê tantas paisagens, tantas nuvens a passar, tanta gente a fitar tantas vezes o vazio? O tempo passa, já se sabe, e a técnica acaba por não conseguir eliminar a necessidade de recorrer às legendas para situar o espectador no espaço e no tempo da acção. Ainda assim, *** para o Cobarde Robert Ford.

II Era do Restos

Para além dos esboços de contos e das experiências semi-poéticas, acrescentam-se tentativas de críticas a música, cinema e, quiçá, a televisão ou livros, juntamente com outras banalidades como dissertações sobre o quotidiano, o amor ou os flagelos que assolam o planeta. Por exemplo, o cheiro a enxofre que ontem provocou o pânico em Lisboa.

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Mensagem de Natal

Eu não gosto muito do Natal. A história do bacalhau e isso ainda vá. A reunião das famílias também é uma coisa boa, especialmente quando se vive longe da família. A lareira acesa - para quem tem a sorte de ser endinheirado e ter lareira - também é bonito e faz lembrar os filmes. Mas quem reúne apenas uma parte da família separada, em redor de um aquecedor a óleo ou a gás, olha para as batatas, para o azeite, para as couves e não consegue deixar de se sentir deprimido e de pensar "falta aqui qualquer coisa". Sim, o bacalhau. Mas não só. Falta algum sentido. Falo de um sentido verdadeiro e unânime. Equilibrado sobre a razão de ser e os bons motivos para se sentir o tal "espírito natalício".
Nesta altura do ano, as pessoas são compelidas a lembrar-se de quem é pobre e de quem está só e de quem precisa de ajuda - e estas ajudas vão desde os donativos para transplantes ou para tratamentos obscenamente caros até às recolhas de fundos para a casa que se perdeu num desastre natural na América Central ou num desastre com gás natural em Setúbal. Escrito assim, até pode parecer coisa ligeira. Mas não é. Esta propaganda natalícia tem defeitos que abomino. Nem falo da tradicional hipocrisia e do aproveitamento da quadra - "compre mais embalagens de Cerelac que a gente dá 20% aos pobrezinhos de um bairro de barracas a designar e aumenta as vendas em 12%, o que nos permite realizar uma diminuição de 0,2% nos despedimentos de Dezembro" -, que até pode ter como lado positivo relembrar consciências com posses na algibeira - antes uma vez por ano do que vez nenhuma. O que mais me enerva e chega a deprimir é esta espécie de sentimento de culpa que se distribui por cada um de nós e que logo se apaga com um novo slogan publicitário - "ajude quem precisa, mande fraldas para a morada X" seguido de uma Leopoldina que tem montes de brinquedos novos e espectaculares, made in China com mãozinha de obra, seguida de um compacto com imagens comoventes de crianças barrigudas e cheias de fome seguido do novo telemóvel de uma marca estrangeira com modelo exclusivo para uma empresa portuguesa e utilizado exclusivamente por gente universal, cosmopolita, bonita, sorridente e bem vestida, feliz da vida. Eu não tenho dinheiro para telemóveis com câmaras de filmar e piscina. Eu posso partilhar dessa culpa natalícia e social pelo mal dos chamados "desfavorecidos", mas infelizmente não tenho como compensá-los pelo meu pecado que é fazer parte desta sociedade injusta (poderia haver aqui egoísmo; mas prefiro chamar-lhe "instinto de sobrevivência"). Eu não suporto a Leopoldina nem a outra, a Popota. Eu não vou à Missa do Galo porque não sou Católico e, como respeito os católicos, não frequento os seus espaços sagrados só porque é costume. Eu não gosto muito do Natal. Mas, ainda assim, e como é tradição cantar-se nesta altura do ano em tudo quanto é coluna de tudo quanto é centro comercial, desejo a todos um bom Natal. Sinceramente.

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

agora que te meti o dedo na boca
quero que contes até três
um
dois
três

não consegues falar com o meu dedo na tua boca?!
vamos ter chatice

mudemos a situação:
vamos fingir que agora não tens o meu dedo na tua boca

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Poema de Verão

contigo quero escrever poesias
feitas de carne e saliva
suspiros, espasmos e gemidos

no líquido obsceno do teu corpo
vou deglutir uma epopeia devassa

e vou pegar-te o peito todo
como se um teu seio
fosse a curva redonda
mais recôndita e inacessível
deste universo

e a ponta da tua mama
fosse o bico obscuro
que vai para lá de tudo
e não se pode agarrar
apenas beijar e lamber com o pensamento